terça-feira, 18 de agosto de 2026

Estrelas de musicais cantam e encantam na celebração da Congregação Israelita Paulista

“Um לugar Para Nós – da Broadway ao Brasil” reuniu Broadway e Brasil em uma noite de música, memória e emoção, um marco na história da Congregação Israelita Paulista

Foto: Flavio Mello e Fabiana Koren/Divulgação


Por Mera Teixeira (@mera.teixeira)


Artistas renomados do teatro musical brasileiro se uniram em prol dos 90 anos da Congregação Israelita Paulista (CIP), no último domingo (16), na Sala São Paulo. Intitulado “Um לugar Para Nós – da Broadway ao Brasil”, o espetáculo beneficente contou com as belas vozes de  Alessandra Maestrini, Bruna Guerin, Giulia Nadruz, Kiara Sasso, Samantha Schmütz e Soraya Ravenle, além das participações especiais de Gottsha, Marcos Veras, Saulo Vasconcelos, Felipe “Pipo” Grytz e Avi Bursztein, sob direção de Gustavo Barchilon e Antonio de Arruda Ribeiro e roteiro e curadoria de Claudio Erlichman. Dan Stulbach foi o mestre de cerimônias.

Os artistas foram acompanhados pela São Paulo Big Band e Orquestra. Com a Sala São Paulo lotada, o público percorreu uma viagem pela história do teatro musical, que evidenciou a contribuição decisiva de compositores e criadores judeus para a construção da Broadway.

Foto: Flavio Mello e Fabiana Koren/Divulgação


Irving Berlin, George e Ira Gershwin, Leonard Bernstein, Stephen Sondheim, Jerry Herman e Burt Bacharach estiveram entre os homenageados, em números de clássicos como West Side Story, Chicago, Cabaret, Funny Girl, Hello, Dolly!, Yentl e Fiddler on the Roof. A montagem também lembrou Victor Berbara e Oscar Ornstein, pioneiros do teatro musical no Brasil.

A identidade judaica da noite ganhou ainda mais força com as performances dos cantores litúrgicos da CIP. Avi Bursztein emocionou o público ao interpretar, em iídiche, “Romenia, Romenia”, clássico do repertório judaico que evoca com humor, afeto e nostalgia a vida judaica no Leste Europeu. Já Felipe “Pipo” Grytz deu voz a um dos momentos mais emblemáticos do espetáculo ao interpretar uma canção de “Um Violinista no Telhado” (Fiddler on the Roof), musical que se tornou um dos grandes símbolos da memória, das tradições e dos desafios vividos pelas comunidades judaicas da Europa Oriental. As duas performances reforçaram o elo entre a tradição judaica, a história da Broadway e os 90 anos da CIP.

Um dos momentos emblemáticos da proposta de aproximar Broadway e Brasil foi a apresentação de “Basta um Dia”, de Chico Buarque. O musical homenageou o compositor brasileiro ao traçar um paralelo com Stephen Sondheim,  dois autores que, em universos distintos, transformaram o teatro musical por meio de letras sofisticadas, poesia e uma rara capacidade de traduzir sentimentos humanos em música. 

“Celebrar os 90 anos da CIP é celebrar uma história que começou com imigrantes e refugiados que chegaram ao Brasil trazendo sua cultura, suas tradições e, sobretudo, a esperança de recomeçar. Assim como os judeus que ajudaram a construir a Broadway transformaram a memória da dor em criação, a CIP, ao longo de nove décadas, buscou transformar acolhimento em pertencimento e responsabilidade, contribuindo ativamente para a vida cultural, social e democrática de São Paulo e do Brasil. Em tempos de crescente antissemitismo, esta noite reafirma valores que não podem ser seletivos: diversidade, respeito e a capacidade de transformar diferenças em criação e memória em construção”, afirmou Laura Feldman, presidente da CIP.

Para Gustavo Barchilon, que idealizou o projeto a partir de um desejo antigo de homenagear a contribuição judaica ao teatro musical, a realização ganhou novo significado após os ataques de 7 de outubro e o crescimento do antissemitismo em diferentes partes do mundo. “Que emoção! Que noite especial para a nossa comunidade e para o teatro musical. O que conseguimos fazer foi um verdadeiro milagre e só foi possível graças ao talento, à entrega e ao carinho de tanta gente. Que orgulho dessa noite”, afirmou o diretor.

O roteiro mostrou como compreender a Broadway e também por compreender a trajetória da imigração judaica nos Estados Unidos. “Uma comunidade que encontrou portas fechadas em muitos setores acabou abrindo, com criatividade e talento, algumas das portas mais importantes da cultura mundial. A vida lhes deu limões. Eles fizeram uma limonada e, algumas décadas depois, ela estava em cartaz na Broadway e ganhando um Tony”, resumiu Claudio Erlichman.

Para Alessandra Maestrini, a noite teve ainda um significado afetivo. A atriz recordou sua ligação com a comunidade judaica desde “Yentl” e destacou o encontro entre artistas que compartilharam diferentes momentos de suas trajetórias. “Foi uma celebração dupla, para vocês e para a gente”, afirmou.

O nome “Um לugar Para Nós”, inspirado em Somewhere, de West Side Story, sintetizou o espírito da noite. Com o “L” substituído pelo Lamed (ל), letra hebraica associada ao aprendizado e ao crescimento, o espetáculo celebrou histórias de pessoas que atravessaram oceanos em busca de um lugar para recomeçar, de artistas que encontraram no palco um lugar para criar e de uma comunidade que, há 90 anos, encontrou no Brasil um lugar para pertencer, construir e contribuir.   

Elenco do musical. Foto:Flavio Mello e Fabiana Koren






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